quinta-feira, 13 de maio de 2010

Crueldade demasiada humana


Medeia, adaptação de texto de Eurípedes, com direção de Marcelo Marchioro, estreia amanhã no Guairinha

É bem provável que, depois de passar 50 minutos dentro do Guai­­rinha conferindo Medeia (confira o serviço), o espectador venha a pisar na calçada da Rua XV confirmando a tese de que a crueldade é inerente ao ser humano, e não tem fim nem limites. Afinal, crimes como o cometido por Me­­deia, que matou os dois filhos, continuam acontecendo. A recente tragédia provocada pelo casal Anna Jatobá e Ale­­xandre Nardoni apenas confirma a argumentação.

A montagem, realmente, deve provocar repercussão, a começar pelo fato de que tem a assinatura de Marcelo Marchioro. O renomado diretor escolheu o texto de Eurípedes por vários motivos. Também, para evidenciar como a mulher, representada por Medeia, continua sem vez e sem voz na sociedade. O recorte que ele fez do texto faz dessa encenação, acima de tudo, um olhar sobre o universo feminino. E isso já se revela pela escolha do elenco.

O público terá a oportunidade de ver Claudete Pereira Jorge, 55 anos, e Helena Portela, 30, respectivamente, mãe e filha em cena. Elas já dividiram o palco em Final do Mês, de Alexandre França, há dois anos, mas, desta vez, o desafio adquire outra dimensão. E nem poderia ser diferente: trata-se de um texto que sobrevive, e fica cada vez mais forte, desde a Grécia Antiga.

Força-tarefa

Marchioro, Claudete e Helena estão envolvidos com esse projeto faz um ano. Consultaram diversas fontes: filmes, óperas, livros. Du­­rante dois meses, ensaiaram na sala da casa do Octávio Camargo, que ajudou, principalmente, Clau­­dete a afinar as falas. “O Camargo é um músico que me fez perceber que toda frase também é música, e o público vai sentir que, ao falar, também estarei muito melódica”, diz Claudete.

No palco do Guairinha, estarão duas atrizes: Claudete, que dará complexidade a Medeia, e Helena, a interpretrar a Ama, que ainda enunciará falas de outros personagens, apesar de ela não modificar, em nenhum momento, a entonação. Helena também vai cantar em cena, a partir da trilha sonora gravada por Troy Rossilho.

O trio central da montagem salienta que houve muitas pessoas torcendo para Medeia dar certo. E não foi apenas torcida: a montagem contou com um time de apoio em ação. Foca Cruz fez a programação visual; a direção de movimento e a preparação vocal são de Katia Drummond; Cléber Braga é o assistente de direção; a iluminação ficou sob responsabilidade de Erica Mitiko; e a Ricardo Garanhani coube a elaboração dos cenários e figurinos.

A sombra que pesa

Mas, apesar de todo esse apoio, Marchioro salienta que Medeia pode ser definida como “pa-pum”. “Ou seja, é teatro feito a partir de um bom texto e elenco de primeira qualidade”, ressalta o diretor. De “efeitos especiais”, a plateia verá uma quantidade de água sendo despejada no palco em uma das cenas que an­­tecedem o encerramento da apre­­sentação. Fora isso, é o “pa-pum”, expressão que Marchioro usa para se referir ao teatro que ele realiza e gosta de assitir: uma peça que acontece sem que o espectador se dê conta que passou.

Helena, depois dessa imersão no imaginário grego, percebe que os pontos de contato dos tempos de Eurípedes com o presente são muitos. A violência, cita a atriz, é a questão mais evidente. Mas, pondera, naquele período tudo era mais direto. “Na Grécia Antiga, as pessoas matavam e não escondiam de ninguém as suas atitudes. Hoje, realmente, é a era da hipocrisia. Tudo é camuflado”, afirma.

Claudete, por sua vez, tem a impressão de que o público que assistir a Medeia vai entender por que dizem que o tempo passa e quase tudo permance igual. “Os problemas do ser humano são os mesmos, apesar de que a capacidade de oprimir o semelhante e cometer crueldades tem se aprimorado com o passar do anos”, finaliza.


Fonte: Gazeta do Povo

Publicado em 12/05/2010 | Marcio Renato dos Santos

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